domingo, novembro 10

Não lhe chamam Eterno por nada...


Isto é futebol! Como se um dérbi eterno não tivesse já magia suficiente, inclui-lo na Taça de Portugal é incluir também a condicionante de que quem perder, irremediavelmente, fica pelo caminho. E isso é catapultar toda a emoção para níveis sobrenaturais onde não há desvantagens que resistam, onde não há prognósticos e probabilidades. Ninguém imaginaria, de novo, que este Benfica-Sporting (para a terceira eliminatória da Taça) ficasse marcado por mais um 'jogão' - este com sete (!) golos. E se durante a partida tudo passou pela cabeça de quem o seguia, o melhor mesmo é fazer-se uma edição DVD deste (super) clássico para os amantes do futebol verem até o mesmo se gastar.

Golos, golos e mais golos. Eles vieram de todo o lado e foram marcados de todos os feitios. E o maior responsável nem é alguém insuspeito. Um paraguaio que desde que foi reintegrado tem sido o 'abono' de um sistema que pensava que podia viver sem ele. Mas não pode. Muito porque não há ninguém no plantel do Benfica tão especial e decisivo como Oscar Cardozo, por mais que o estilo tape com uma peneira o ego de quem o caracteriza. Como não ver que com um jogador destes o estilo é secundário? O futebol é enorme de mais para ser limitado a velocidade, técnica e drible. E o que se comenta, pejorativamente, em relação ao Tacuara é só o revelar de quão pequena é a visão do desporto-rei em quem insiste em tal ‘conversa’.

Mas muito mais há para falar. A começar pela 'vitória' que Jorge Jesus trouxe da Grécia. Não, o Benfica não ganhou o jogo frente ao Olympiacos mas ganhou um sistema (4-3-3) que lhe permite enfrentar os grandes jogos sem perder durante tanto tempo o domínio territorial das partidas. E esse encaixe táctico ao trio do meio-campo leonino (William Carvalho, Adrien e André Martins) levou a que a raça de Enzo Pérez fizesse prevalecer o futebol encarnado em grande parte de um primeiro tempo onde o Benfica foi tremendamente eficaz. E o Sporting também acabou por sê-lo, mas para contagem só teve o lance de Capel - que empatou a partida depois do primeiro golo de Cardozo.

Mas a vantagem criada na primeira-parte pelos encarnados nasceu de factores muito peculiares. As jogadas de golo começam antes da bola bater nas redes e no seu desenrolar vai-se esquecendo o que tornou possível com que elas chegassem ao sucesso. O segundo golo do Benfica nasce do delicioso pormenor de que Artur teve de pontapear a bola porque o Sporting colocou Montero e Wilson a 'marcar' Luisão e Garay – para o Benfica não sair a jogar. Na sequência da bola longa o Benfica foi mais forte e Enzo Pérez acabou por carregar a bola até Gaitán. E aí o génio do argentino encontrou a cabeça de Tacuara. Uma combinação que é, como se sabe, mortífera.

Os leões não conseguiam vergar o esquema ‘grego' de Jesus e a pressão no miolo era enorme, até para a pérola que é William Carvalho. O jovem 'trinco' cedeu e Gaitán (que grande jogo fez o argentino!) conduziu e entregou a um Rúben Amorim que se vê crescer com a nova opção de JJ. Já na área, não será difícil saber quem o médio encontrou para o Benfica fechar a primeira-parte com uma vantagem de dois golos que meteu toda a gente - que subestima o dérbi eterno - a pensar que os encarnados tinham o jogo na mão.

E provavelmente até teriam, no entanto sublinhe-se de novo que este não era um jogo de campeonato e que quem perdesse... caía fora. E nesse cenário o Sporting teria que aparecer (mais) no jogo. E se havia dúvida que assolava o coração de quem segue os leões era se a equipa conseguiria mesmo reproduzir o futebol 'das goleadas' de início de época, contra os maiores rivais. E dizemos ‘havia’ porque ela foi totalmente dissipada com a segunda-parte que a equipa de Leonardo Jardim fez na Luz. Conseguir levar o jogo a prolongamento foi um feito que veio do ‘ar’, onde o Benfica, desta época, tem estado cheio de vertigens.

Mas entre o golo de Maurício (63’) e o de Slimani (90’+2) foi tanta a nuance que importa referir também tudo o que levou a que o jogo oferecesse meia-hora ‘de borla’ a todos os que o seguiam. É que não foi só a falha da ‘zona’ do Benfica nas bolas paradas que levou o jogo para um emocionante prolongamento. Outros erros e mudanças tácticas fizeram com que leões e águias se equilibrassem num jogo apaixonante que foi uma verdadeira montanha-russa de emoções.

Desde logo, Leonardo Jardim foi lesto a mexer na equipa, e no sistema. O madeirense teve a coragem de abdicar de André Martins para lançar Slimani - já depois de Carrillo ter rendido Wilson Eduardo - e mudar a equipa para um 4-4-2 que seria bem perigoso no último terço do terreno. Mas para essa ofensiva leonina resultar os leões perderam, por minutos, o controlo da partida para um 4-3-3 de que Jesus parece aprender a gostar. E nesse momento o Benfica podia ter sentenciado o jogo com dois perigosos lances num só minuto: Markovic ao poste e a excelente defesa de Patrício a negar o 'poker' a Cardozo (83').

E aí o Benfica respirou fundo. Estava a ganhar e havia criado chances para matar um jogo que parecia estar na mão. Mas na equação apareceu um argelino que é mesmo bom de bola. Islam Slimani foi bom a tabelar e foi bom a aparecer. Primeiro acertou no poste - para não se dizer que alguém merecia mais que alguém - para depois (90'+2) subir às tais alturas que metem este Benfica tonto. Que loucura de jogo!

E no prolongamento não havia de ser diferente. Jesus mexeu também (tirou Pérez, lançou Lima, e voltou ao 4-4-2) e o jogo andou quase sempre partido. Tanto que (mais uma vez) ninguém esperaria que fosse uma enorme falha defensiva a decidir quem seguia em frente. Depois de tudo o que fez, Rui Patrício não merecia que ninguém da sua defesa deixasse a bola (que Sílvio lançou para a área) bater na relva sem antes a atacar. Luisão, rente ao solo, cabeceou caprichosamente uma bola que, caprichosamente também, passou por entre as pernas do guardião leonino levando o Benfica aos oitavos-de-final da Taça.

Ingrato ou não, o facto é que o futebol não parece importar-se com o adjectivo que tanta vez lhe atribuem. E o mesmo deverá fazer Duarte Gomes que não teve o auxílio das repetições em slow-motion que agora carregam contra si, em relação aos três lances polémicos da partida. Se 'sim' e se 'não', só a personagem 'Vigia', da Marvel, o poderá revelar. E pode ser que esse 'Mundo parelelo' venha na tal edição DVD que falámos acima.

Benfica-Sporting, 4-3* (Cardozo 12', 42' e 45' e Luisão 97'; Capel 37', Maurício 63' e Slimani 90'+2)

*após prolongamento

Foto: Lusa
Figuras:
Benfica: Cardozo, Enzo Pérez e Gaitán
Sporting: Adrien Silva, Slimani e William Carvalho

10 comentários:

  1. Excelente post foi realmente 1 grande derby!

    Em relação ao Duarte Gomes a falta do luisao nao é assim tão difícil de descortinar...

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  2. E não. Para mim são três erros. Mas nenhum é tão de caras assim. Em todos eu consigo ter uma opinião. Mas se estivesse lá dentro não sei.

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  3. Anónimo6:46 p.m.

    Em relação ao jogo, não vi assim "tanto" Benfica. Gostei mais do futebol do Sporting, mais apoiado, mais equipa.

    O Benfica tem, individualmente, um onze muito superior, isso sim.

    Acho que o jogo foi equilibrado na primeira parte, com algum ascendente do Benfica. Mas a segunda parte teve mais Sporting, mesmo que tenham sido do Benfica as melhores oportunidades para acabar cmo o jogo.

    O Spoting foi exímio em explorar o ponto fraco deste Benfica, como tu muito bem destacas.

    No fim, apesar da passagem, não fiquei convencido. Aliás, provavelmente, os sportinguistas ficaram mais convencidos, mesmo com a derrota.

    Jardim tem mostrado muita qualidade e atenção porque o Sporting não tem um plantel com muitas opções.

    Tem espremido bem as qualidades dos jogadores. Para o ano, com Europa e mais pressão, a música é outra mas o plantel terá, obviamente, que ser reforçado.

    Jesus, mais do mesmo. A mesma inaptidão de sempre para reagir, e quando o faz, faz mal.

    Meter Cavaleiro por Amorim, não lembrava ao diabo. E definir o momento do jogo com a entrada de Lima é de cagar a rir.

    Em relação aos erros, acho piada destacares apenas três lances. O jogo teve 120 minutos e os erros foram mais.

    Vou fazer um post com todos os lances importantes. Depois quero a tua opinião sobre eles :)

    Bom post, puto. Abraço!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Na boa, faz isso! =) Sabes bem que vou ler. Enumerei três erros porque são aqueles que poderiam mudar o curso do jogo, ou não. É-me um pouco indiferente.

    Adorei o jogo.

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  6. Luis, só vi com atenção a primeira parte e não concordo nada com isso do equilibrio. O SLB foi claramente superior e dominou por completo o jogo na primeira parte. Não jogou tão bem qt isso é verdade, aí concordo mas o scp pouco ou nada fez de relevante.

    Com a saída de Amorim eu teria colocado André Gomes. Acho que JJ aí falhou tal como ao colocar Lima por Enzo e voltar ao 442.Podia ter corrido mal.

    Sofrer três golos daqueles é muito preocupante.

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  7. Na 1 parte houve bastante equilíbrio até aos 40 min mas os últimos 5min são demasiados maus e practicamrente entregaram a vitoria ao Benfica.

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  8. Eu estou como o Luis, os adeptos do Sporting, apesar de terem sido eliminados devem ter mais razões para sorrir que os do Benfica.
    Na segunda Parte o Sporting foi, aliás é, mais equipa. Como colectivo não tenho dúvidas que o Sporting é mais forte nesta altura.
    Jardim está afazer um trabalho de se lhe tirar o chapéu.
    Além da forma parva como sofremos os 2 golos d canto, mais preocupante é ver esta equipa de milhões ver estes miúdos fazerem-lhes peito. Se fosse apenas uma vez ainda dava de barato, mas esta época já é a 2ª vez...
    Sem qualquer demérito para o Sporting, mas acho que o Benfica tinha obrigação e fazer mais. Até porque derby é derby.

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  9. O Jesus voltou a demonstrar a sua incapacidade para reagir à quebra da sua equipa. É impressionante como protela as substituições e só as efectua em função dos problemas físicos dos atletas. Responsabilidade total no empate ao fim dos 90 minutos.

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