quinta-feira, dezembro 10

The Scientist

Os Coldplay são hoje das bandas mais gozadas. Cada clip, cada refrão, cada interminável tentativa de épica, são só cinzas de quem, no início, teve dois caminhos para escolher. Bem se enganou quem se deixou encantar pelo Parachutes ou por A Rush of Blood to the Head. A determinado momento os britânicos seguiram pela via que mais desejavam, não se colocando hoje em dúvida se eles quereriam fabricar boa música ou conquistar a maioria fácil de público. Hoje está à vista de todos. Tanto como aqueles pormenores linguísticos que vão separando o castelhano do português. Escrever "tenho a ilusão" numa qualquer frequência, de um qualquer curso, de uma qualquer universidade portuguesa, levanta a dúvida se o aluno não andará a consumir demasiado castelhano: O que quis dizer por ilusão, rapaz? 

Lopetegui é aquilo que é. Não o que a cabeça dos portistas quis que ele fosse e não o que a cabeça dos adversários quer que ele seja. Uns e outros, na sua maioria, ligam aos resultados. Assim, Julen, foi aclamado na vitória caseira contra o Bayern e arrasado no massacre do Allianz. Nada de novo aqui, no fio-de-prumo do lugar-comum. Mas Lopetegui é mais do que isso, o que não quer dizer que, na realidade, seja algum treinador em que valha a pena o FC Porto apostar. Bem vistas as coisas nunca valeu. No entanto criou-se a ilusão - até ilusión serve, aqui - que sim, que na sua 2.ª época Julen Lopetegui perceberia como é o futebol (português). Mas Lopi não percebe, sequer, o que é o futebol. Não percebe porque quer triunfar como se as equipas de hoje não percebessem o que é o espaço central a atacar e a defender. Não percebe porque quer triunfar com um jogador a furar por entre uma muralha. Não percebe porque quer triunfar com uma posse-de-bola estéril, facílima por fora do bloco. E não percebe porque pensa triunfar ao impedir transições reforçando... o eixo central da defesa. Lopetegui é um Quique Flores, um Camacho, disfarçado de Guardiola. Não pelos resultados, mas pelo maneira com que os fabrica - pensando que o futebol se decide como nos anos 90.

Esta é a real faceta de Lopetegui. Um técnico que enganou a SAD portista com uma ideia moderna, mas que na sua 2.ª época pensa ganhar um jogo decisivo em Stamford Bridge abdicando da sua essência. Depois, é um técnico que na sua 2.ª época sentindo algo que comparou a uma religião (o portismo), consegue ter a 'ousadia' de querer virar um jogo decisivo com a táctica que usa para segurar jogos sofridos na Liga Portuguesa - fazendo entrar Rúben Neves para o lado do trinco. Lopetegui é um cagón dos anos 80/90 que a pensar assim nunca triunfará nos 10's do novo milénio. Simplesmente, no meio de toda a sua teoria, não escolheu bem. E não escolheu bem porque não sabe mais, não vê e nem sequer sente. Olhando para três centrais que, nem assim, ocupam bem o espaço central (onde por exemplo Willian entrou para selar a partida) e olhando para um Brahimi encarregue de aparecer na zona do ponta-de-lança, na zona do 10, na ala, e ainda vir buscar jogo atrás, percebe-se que Lopetegui não percebe nada de nada do que é o portismo. Esse sentimento ajudado a criar por um Mourinho que era ontem uma presa acessível mas que, mais do que isso, é o técnico que ajudou a criar aquele Porto que não muda em função de Adamastores. E que seria desse Porto se Mou tivesse entrado em Old Trafford com Pedro Emanuel em vez de McCarthy?

É só um lapso, pensou-se. Ao intervalo o 1-0, feito com a malapata do costume nos grandes jogos europeus dos azuis-e-brancos que não convencem (ou é um frango, ou um chouriço, ou um ressalto...) abria uma janela de oportunidade. A mesma, ou parecida, à que se abriu com uma nova aposta no basco para uma segunda época. E o que Julen fez - mantendo o erro - é parecido ao que tem feito. Ao menos é constante no erro, o basco. Talvez para tentar provar que num ambiente hostil - pensa ele - conseguirá provar a sua matriz, a sua ideologia, a sua filosofia, a sua, em suma, parvoíce. Tem um só repto, o técnico do FC Porto: provar a todos os ignorantes jornalistas e adeptos (do próprio clube ou adversários) que é ele que está certo. Isso, provavelmente, redundará numa terceira época a seco para o FC Porto. Pois uma equipa que nem com três centrais assume uma linha defensiva que não anda doida da sua cabeça a abanar a perseguir adversários em vez de fechar o espaço, não tem muito a conquistar enquanto Jorge Jesus estiver em Portugal. Se esta Liga, esta fraca Liga, não depender dos clássicos que faltam talvez Julen leve a sua avante. Mas isso é e será pura ilusão. Tal qual Liga Europa, onde haverá certamente algumas equipas com noção do que é preciso para travar este FC Porto: fechar bem o meio e esperar pela(s) oferta(s). Que o digam o poderoso Dynamo Kyiv e o espectacular 14.º classificado da Premier League.

9 comentários:

luis disse...

Primeiro parágrafo muito bom. Ainda há dois dias falei neles e naquilo em que se tornaram. Os dois primeiros álbuns muitos bons nunca me fariam suspeitar disto que acontece actualmente.

Em relação ao Lopetegui, compreendo as tuas dores. O FCP tem um manancial enorme de qualidade mas acho que o basco está, também, a ser vítima de um novo paradigma de contratações. Jogadores óptimos, mas sem ligação ao clube, que estão de passagem.

Não discuto a tactica, até porque perderia contigo de goleada, mas o FCP não tem, actualmente, o que sempre teve em doses grandes: identidade.

Além disso, penso que está demasiado exposto (assim como Jesus e Vitória, é verdade) mas em clara desvantagem nesse contexto que não domina.

Se precisará de mais tempo? Talvez não. Mas, no fundo, penso que existem poucos treinadores capazes de levar uma equipa ao sucesso de forma quase imediata.

Marco Morais disse...

Realmente os dois primeiros álbuns eram, para a altura, bastante bons. Depois perdeu-se a identidade. O que será um bom ponto de partida para falar do que se passa no Porto. Sabes, não acredito que se trate disso até porque os Hulks, os Lisandros, os Falcões, os James também estariam a prazo. O que me chateia é que este Lopetegui também vive na mesma indefinição que os Coldplay. Talvez os Campeonatos da Europa que conquistou com os putos sejam os dois primeiros álbuns, nesta ridícula comparação. Mas ele é arrogante e os defeitos que essas equipas demonstravam - já lateralizavam que era uma coisa parva - ele copiou e manteve no Porto. Olha para aquela linha defensiva é deprimente. Olhar para a maioria daquela posse também é. E o que Mourinho lhe fez ontem não é diferente do que Jesus lhe fez há um ano. Mas ele pensa estar certo. Pensa que os seus métodos e ideia são mais evoluídos. Um cientista, portanto.

No meio de tudo isto não posso dar valor à comunicação, por exemplo. Ele quando chegou era uma espécie de gentleman. Depois, a pedido, começou a deixar-se ir pelas tretas de sempre. A Lopetegui só se lhe pode pedir que a equipa (com bastante talento à disposição) jogue um futebol contemporâneo ou até futurista. Isto que ele quer não faz de um clube grande. Pelo contrário, deita-o abaixo. Ontem as equipas de VP e AVB ganhariam o 1.º jogo oficial em Inglaterra. Lopetegui mais não faz do que se pôr a jeito, a cada jogo deste género. Lá escapou num ou outro, o que só serviu para alimentar... a ilusão.

Em suma, expôs-se porque quis, não precisa de mais tempo (nem ele, nem nós) e não consegue sucesso, de forma imediata ou a médio-prazo, porque não tem ideia para isso.

Mr. Shankly disse...

Nunca achei os Coldplay um espectáculo, e agora são anedóticos. Sempre tive a ideia que o caminho seria este.

Quando sair, Lopetegui não deixa saudades, nem futebolísticas, nem em termos pessoais. Como bem diz o Marco, cedo enveredou pelas tretas, desculpas, pressõezinhas e choros. Aquele ar de quem se acha superior aos outros (self-righteous é a expressão que me ocorre, felizmente não é em castelhano) é do mais irritante que há.

Em princípio segue-se AVB. Não tenho saudades dos resultados (obviamente) mas tenho da postura. Mesmo quando se exaltou, veio pedir desculpa (porque estava errado). Quantos o fazem? A propósito, este também tinha uma "castelhanice": "Dá-me igual". Lembram-se? :)

Marco Morais disse...

Shankly, parece-me que com uma eventual derrota em Alvalade o ambiente ficará insustentável para a SAD. E com o Nuno livre... Deus nos livre e guarde.

Do parágrafo do AVB - que me desiludiu pela qualidade e ideia de jogo nestes últimos 3 anos - não entendi a parte onde dizes que não tens saudades dos resultados. Foi dos técnicos mais vitoriosos do FCP. Lapso?

De resto lembro-me de ele ter pedido desculpa depois de Guimarães e de cair como uma luva na preparação dos jogos. Não conheci técnico melhor comunicador e talvez por me encher as medidas nesse campo nem reparei no 'dá-me igual'.

Grande abraço!

Marco Morais disse...

Faltou dizer, obviamente, que AVB, ainda assim, está a anos-luz de Lopetegui. Seria excelente tê-lo de volta. Mas não acho assim tão certo.

Depois, não estou a ver ninguém. Augurava um bom futuro ao técnico do Paços, mas depois de perceber, aqui há uma semana, que tem miopia (não viu 5 oportunidades claras do golo), fiquei desiludido.

Apostas em alguém, tirando o AVB?

luis disse...

O FCP resolvia a coisa com o VP. Se fez o que fez com uma equipa remendada, imagino que com estes plantéis fizesse melhor.

Ou o Marco Silva.

Assim como o Benfica.

Mr. Shankly disse...

"não entendi a parte onde dizes que não tens saudades dos resultados. Foi dos técnicos mais vitoriosos do FCP. Lapso? "

Não, eu sou benfiquista :)

Peyroteo disse...

:)

Marco Morais disse...

Shankly, sorry! sei o que custa ser confundido! :) Mas é bom sinal, acredita.

Luís,

Marco Silva? Não, obrigado!