quarta-feira, novembro 16

O autista e o irredutível

Pé ante pé até os mais intransigentes vão deixando de acreditar no sucesso de um Porto orientado por Vítor Pereira. Os sinais, já aqui por mais discutidos, tornam-se evidentes a cada decisão da equipa em campo que é reflectida pelas decisões, e falta delas, da equipa técnica. E se no meu caso pouco mais há a dizer para ajudar a conhecer a opinião, que dirão os irredutíveis defensores (SAD incluída?) de uma performance futebolística que roça o medíocre? Entretanto, a selecção qualificou-se para o Euro e os seus responsáveis sentiram-se na obrigação de defender o seu trabalho. Afinal de contas os resultados deram-lhes razão, mas tal como na questão 'Porto' serão esses resultados um copo meio cheio ou um copo meio vazio?

Muito se fala em resultados. Afinal são eles quem dita e quem não dita o sucesso das equipas e por isso mesmo são considerados a fonte mais fidedigna para prever esse mesmo sucesso. E por incrível que pareça são esses resultados que foram a principal fonte alimentadora da tolerância para com Vítor Pereira no seu 'reinado'. Tudo começou com vinte minutos de pressing frente ao todo-poderoso Barcelona e a ousadia de correr atrás de todo e qualquer jogador blaugrana - Valdés incluído - trouxe crédito a uma estratégia que se preocupou mais com imagem deixada do que propriamente com uma vitória ou com um futebol que a garantisse.

Desde aí tem sido assim que a equipa técnica tem, conscientemente ou inconscientemente, procedido. Primeiro a imagem. Há que provar que são dignos sucessores de alguém que pelo seu próprio pé, tranquilidade, inteligência e ideias, obteve uma das melhores épocas de sempre no clube. Assim se cumprem serviços mínimos e se deixa o futebol de lado pois importa ir calando as ondas com um, dois talvez, apontamentos por jogo, esquecendo-se que o futebol tem tanto de complexo que não basta querer ganhar ou querer fazer por isso. Tem de se ser completo, metódico e... regular. E isso este FC Porto de Vítor Pereira não é, e provavelmente nunca será.

E é tão grande a minha certeza que já nem os habituais devaneios na escolha do onze titular me dariam qualquer tipo de esperança. Quem viu o jogo com o Olhanense pode rapidamente perceber-me, pois até poderíamos ter o Zidane ou o Deco no meio-campo e nunca teríamos consistência no mesmo, pois o lugar de playmaker está entregue aos centrais. Futebol à boa maneira Distrital onde não imperam ligações nem planos. Uma equipa que trata mal a bola, que não a quer quando a perde, pode ir ganhando a cepos mas até o indicador dos resultados e números se vai esvaziando quando até a cepos não se ganha.

"Não preciso que me assobiem para beber água"

Na selecção mais uma vez os resultados condicionaram semanas de trabalho. Derrota na Dinamarca, 'queda' para o play-off e os habituais arautos da desgraça já previam à sua boa maneira uma humilhação indigesta para a equipa das quinas. E são mais uma vez os resultados que distraem e formam convicções exageradas, porque a qualquer pessoa de boa senso lhe seria possível ver que mesmo perdendo, no pior dos cenários, em Zenica, a diferença entre as duas selecções é tão grande que só por milagre (nem com uma noite horrível do árbitro) os bósnios não sairiam goleados da Luz.

Mas são esses mesmos profetas da desgraça que depois enchem os peitos aos responsáveis da selecção para andarem à 'caça aos tordos' nos flash-interviews posteriores ao sucesso, dizendo barbaridades como a que faz de título a estes parágrafos.

Toda a gente sabe que o jogador de futebol de alto nível, é um bicho estranho capaz das maiores parvoíces. Jogadores entre os 20 e 30 anos com popularidades imensas, pagos a milhões de euros e que militam nos maiores clubes do Mundo são ainda mais peculiares e a sua formação como homens foi posta em segundo plano em detrimento da formação que agora lhes vale a vida. Se alguns vão surpreendendo e são verdadeiros senhores fora e dentro do campo, a outros terá que se lhes desculpar a falta de desculpas ou a falta de educação. Então a isto se lhe somarmos o ego ganho a fazer parte de clubes planetários com salários de milhões...

E é isto que Paulo Bento não entende. O que até me parece ridículo visto que ele foi um jogador de futebol de alto nível por muitos anos, e a sua falta de entendimento para lidar com 'casos' pode-nos custar o desmembramento da equipa. É que a ideia de abandonar a selecção (e não a selecção o jogador) até veio da parte da sua geração de ouro. E que fez Bento aos seus amigos da altura? Deixou de lhes falar?

Convém é começarmos a pensar que o treinador de futebol também é um bicho muito estranho...

7 comentários:

Pedro disse...

A maioria dos treinadores de futebol foi, em tempos, um desses jogadores que ganhava milhões, ego elevado e pouca educação...

Miguel disse...

"e a sua falta de entendimento para lidar com 'casos' pode-nos custar o desmembramento da equipa."

Marco, acredito que pode funcionar exactamente ao contrário.

Pedro disse...

Miguel, compreendo o que pretendes defender mas não me parece. Uma coisa é atacar um inimigo externo e defender os jogadores, criando assim um espírito de união. PB está atacar jogadores. Jogadores que foram dele. E, como facilmente se constata, podem ser qqr outro. Neste momento se calhar muitos pensam q PB pode embirrar com elese dizer depois coisas daquelas em público...

kovacevic disse...

Julgo que o Paulo Bento comete dois erros graves:

» fala dos jogadores em público, normalmente para os denunciar e/ou humilhar

» transforma os episódios de indisciplina em conflitos pessoais

Na conferência de imprensa de ontem, ficou bem evidente o rancor do seleccionador nacional em relação a Ricardo Carvalho e Bosingwa. Ora, ninguém que tenha o mínimo de apreço pela sua própria dignidade atura atitudes de prepotência e autoritarismo como a que o Paulo Bento tem.

Nada disto seria importante, não fora o rasto de vítimas que ele deixa para trás. Perdeu o Sporting e agora perde a selecção.

Jorge Borges disse...

Eu alinmho pelo diapasão do Miguel:Ã ser verdade o que o Bosingwa fez, não havia mais nada a fazer. E se o Carvalho se retatou e pediu desculpa, este nem isso.
Com PB é muito simples, com ele não há indisciplina.
É bom que todos tenhamos o discernimento de reflectir (sem qualquer dose de clubismo - todos gostamos e achamos que os "nossos" merecem lá estar) que talvez seja devido ao facto de ningém ter agora travados os egos excentricos que como selecção ainda não ganhamos nada.
O PB tem defeitos como todos os treinadores, mas é coerente e não valoriza mais o jogador A ou B e lhe permite mais ou menos indisciplina só porque é mais craque ou menos craque.

E no fundo é que, com o mau feitio que todos lhe apontam, conseguiu pegar numa selecção moribunda e levá-la onde já poucos acreditavam que o podia fazer. É claro também que podem sempre falar do jogo da Dinamarca. Um entre muitos...

Filipe disse...

Jorge Borges, a questão é que não é verdade. Os médicos da selecção dispensaram o Bosingwa. Ora PB não é médico, é apenas mentiroso.

Peyroteo disse...

E qual era a necessidade de o PB mentir nesta situação? Ele não precisa de justificar porque convoca este ou aquele jogador. Alguma coisa aconteceu, obviamente. Eu não tomo partidos porque não sei o que se passou ao certo (e o mesmo acontece com todos os que aqui comentam). De uma coisa tenho a certeza: Não foi o Bosingwa a escrever aquele comunicado :) Se a falar já é o que é, imagino a escrita!