quarta-feira, fevereiro 17

O salt(e)ador do golo perdido

Golo perdido, falando do Benfica, é capaz de ser exagero. Mas, ainda assim, as águias andaram, nestes últimos dois jogos, bastante tempo sem marcar. Bastante mais tempo que o costume, de resto. Aí olha-se para Jonas, claro. Olha-se para ele porque marca muito e depois, quando não marca, apetece que ele diga como Ronaldo, referindo-se aos adeptos merengues: "É como um pai para um filho. Um dia damos-lhe tudo, se no outro não dermos...". A comparação com CR7 até é feliz. Se compararmos, por exemplo, o Benfica ao Real Madrid (por mais goleadas que as águias possam ter no seu registo desta época - e por mais derrotas nos jogos mais empolgantes) teremos de o fazer à escala. Já se compararmos, nesta época, Jonas a Ronaldo, poderemos destacar o brasileiro numa corrida que o madeirense já se fartou de ganhar. Mas, adiante, o Indiana deveria, sempre, ser o último dos questionáveis, quer no Benfica, quer em Portugal inteiro. E talvez por isso tenha 'escolhido' o último momento do Benfica-Zenit para oferecer a vitória ao bicampeão nacional. 

Claro que até lá toda a nação benfiquista teve de revisitar a velha história do porquê de Jonas não aparecer nos jogos, ditos, grandes. Contudo na equação estava também um dilema bem português. Com sangue inglês, é certo, mas bem português. Sublinhe-se então a nacionalidade de André Villas-Boas até porque, ontem, o portuense nada tinha para enervar os benfiquistas. E se os portistas, no qual ele se inclui, desesperavam por alguém que os guiasse a novas conquistas na Luz, nesta terça-feira o mentor desses pesadelos benfiquistas tinha uma mão-cheia de nada para levar a Lisboa. Refugiou-se na estratégia que quase deu um pleno histórico aos russos na fase-de-grupos (cinco vitórias e uma derrota) mas a paragem invernal impediu-o - ao que parece - de ir provocando o Benfica, deixando-o em sentido com transições que lhe valeram os tais 15 pontos na 1.ª fase da Champions. Ele [AVB] ou como quem diz, Hulk, Danny, Dzyuba...

Não o conseguindo, Villas-Boas, ainda assim, não deixou cair a máscara do bluff e deixou Rui Vitória sem a vertigem que o tem feito um homem (algo) feliz na Luz. Vitória escolheu subir, com bola, André escolheu descer sem ela. Ambos ficaram sem o jogo-partido que tanto gostam, mas por uma parte - a primeira - formaram um pacto de não-agressão, só quebrado por um remate algo perigoso de Pizzi. Mas à medida que foi ficando evidente que a movida de São Petersburgo não tinha andamento para a noite lisboeta, o crescimento dos encarnados até ao último terço fez adivinhar o golo que os destacaria neste regresso às noites de gala europeias. Sim, a defesa do Zenit ia controlando e haveria sempre um homem a tapar, ou a impedir, a melhor sorte de Jardel, de Almeida ou de Jiménez. A tal ponto que o velho e real fantasma que nos coloca a discutir o melhor sistema para o Benfica (dois avançados ou três médios) nos revisitou. Contudo, para acabar com certas parvoíces que vão entrando nas mentes de quem gosta de ver a bola a rolar, Jonas (quem mais neste jogo iria marcar?) saltou e achou o golo que tanto faltava. E as coisas só estão perdidas quando não se sabe onde estão. La Palisse não diria melhor e, talvez por isso, quase não seja necessário relembrar que se há alguém que sabe onde andam os golos, as boas decisões e outras maravilhas, esse alguém é Jonas, ponto final parágrafo.

O que nos remete para a idiotice já visitada, ainda que de raspão, acima. Pode pôr-se em causa o sistema, pode pôr-se em causa o modelo, mas pôr-se em causa Jonas só pode ser besteira. Mentes mais atentas repararão que, mesmo jogando com dois avançados, o Indiana não tem jogo nas etapas de montanha. Claro que, pedalando nesta metáfora, os grandes trepadores têm sempre grandes equipas por trás. E tendo o Benfica capacidade para ser uma grande equipa, porque raio é que o seu melhor jogador não aparece, sem ser a espaços (às vezes suficientes para usar o seu melhor argumento: o golo)? Algo que só se pode dever à produção de uma equipa que, nesses tais malfadados jogos, nunca consegue o controle absoluto do jogo. Nunca o consegue porque é sempre forçada a alterar os padrões que fazem com que Jonas mostre a sua qualidade estratosférica. Quer seja porque os laterais não se estabelecem no meio-campo ofensivo, quer seja porque Renato (se até sozinho se destaca naquele vazio chamado 'meio-campo' do Benfica..) não tem apoios para procurar o jogo-interior, Jonas desaparece tanto como desaparece o outro avançado. Ou alguém se lembra ontem de Mitroglou?

Daí que Rui Vitória tenha de sair fora-da-caixa em que se meteu. Uma caixa que ainda guarda, apesar de muito rasurado, o nome de Jorge Jesus. Com ele, o dilema era praticamente o mesmo. Saiu a tempo de Jonas não o fazer pensar de mais (é bom que aguente a sua imagem de marca: o cabelo), mas Vitória não se livra de ter que, obrigatoriamente, fazer evoluir o modelo. Mas para isso tem de deixar de ser aquela expressão tantas vezes usada por um amigo benfiquista, com quem gosto de passar noites a falar sobre esta e outras polémicas. Parece que o estou a ouvir a aumentar o volume: Básico! Este gajo é um básico! E para deixar de ser aquilo que tem sido, Vitória vai ter mesmo de deixar de acreditar que Jonas não pode jogar sozinho na frente de ataque, como vai ter de arranjar um companheiro para Renato Sanches. E se a segunda é consensual, a primeira carece de sentido quando se afirma, às vezes à boca-cheia, que um jogador com toque, com as melhores decisões, e com golos (muitos golos!) não vai encontrar forma de tabelar com o mesmo Gaitán, com o mesmo Sanches e com Pizzi. Se faltar gente na área, incluam-se as diagonais de Guedes e faça-se do transmontano o tal companheiro de Sanches. Depois, como dizia Jesus (o de Nazaré) bata-se à porta até que ela se abra. É que Jonas aparece, mas para isso têm de o procurar. E quanto mais controle, posse e corredor central os três médios oferecerem - com o apoio de Gaitán, ainda por cima! - mais Jonas vai responder à chamada, cheio de avançados na frente de ataque. 

22 comentários:

luis disse...

Nem mais (além da excelente prosa).

Quero acreditar que Jonas é desprezado por alguns porque querem tanto que ele resolva que, quando não o faz, é automaticamente bode expiatório.

Faz tudo bem, está numa forma incrível. Faz-me lembrar o JVP.

"Ambos ficaram sem o jogo-partido que tanto gostam". Por acaso achei que o jogo teve muitos momentos destes.

Marco Morais disse...

Tks, Luís.

Tendo como comparação o Benfica-Porto, achaste este um jogo com muito 'tu cá-tu lá'? Acho que houve lances desses, na 1.ª parte, mas não me pareceram contrariar a tendência normal - Benfica mais subido, Zenit fechado.

João disse...

Marco, é mesmo isto. A quantidade de malta que diz não entende o Jonas é assustadora... Há gajos que dizem que é um a menos em campo nos jogos grandes...

Mais um texto excelente, obrigado.

Marco Morais disse...

Mas posso estar enganado. Era um jogo do Benfica, dá para me distrair :P

Marco Morais disse...

João, obrigado!

Já ouvimos isso de outros grandes craques. Olha, os argentinos já fizeram o mesmo com... Messi. Claro que o problema é do Leo, não é?

Lembro-me até de fazer um título para essa história: "Argentina, Argentina, de Messi tens tudo, de (Sa)bella não tens nada!"

Rui Vitória, ou a estrutura, deviam ser os primeiros a perceber isto. Mas olha, Jackson também acabou despachado do Atleti.

Rui Coelho disse...

Escreves que é uma maravilha.
Saudações Leoninas.

Marco Morais disse...

Rui, muito obrigado! =))

Pedro disse...

Quem diz Jonas diz Gaitan. Incrível as críticas que leio ao argentino. Enfim...

"Vitória vai ter mesmo de deixar de acreditar que Jonas não pode jogar sozinho na frente de ataque, como vai ter de arranjar um companheiro para Renato Sanches. "

Nesta fase da época tenho sérias dúvidas que isso aconteça. Pode ser que na próxima época, finalmente, isso aconteça...com um outro treinador dado que tudo aponta para RV rumar à China.

Peyroteo disse...

Achas que Rui Vitória vai para a China? Fala-se é que quem deve seguir para lá no final da época é o Jonas.

luis disse...

"Tendo como comparação o Benfica-Porto, achaste este um jogo com muito 'tu cá-tu lá'?"

Muito parecidos. No geral, sim, Benfica mais em cima, adevrsário mais atrás.

Pedro disse...

Eu não acho nada, é um dos rumores de bastidores que corre por aí. RV tem duas propostas milionárias: para treinar um clube e para ser o coordenador da formação do futebol chinês. Se é verdade ou não, veremos no final da época.

Esperemos que Jonas fique mas com os valores que os chineses estão a pagar aos jogadores é quase impossível. 25 milhões ano para o Lavezzi??? De loucos!!!

Ace-XXI disse...

Excelente como sempre Marco.
Qual é a tua opinião sobre o Zenith e o (fraco) trabalho de AVB? Estranho uma equipa ter tanta qualidade e jogar tão pouco.

luis disse...

Eu acho que é o pior projecto dele.

Explica-me o que fazem gajos como o Witsel, Garay ou Hulk a jogar na Rússia. Dinheiro, só.

Ace-XXI disse...

Obvio que a principal motivação é o dinheiro mas o zenit está em 7 lugar na liga russa com aquele plantel... O AVB tem muitas responsabilidades por não conseguir potenciar todo aquele talento.

luis disse...

Epa mas aquilo é tudo muito estranho. O gajo vai sair.

Peyroteo disse...

Não sei se esses jogadores esperavam estar tanto tempo no zenit. Hulk e witsel foram para lá em 2012. São já 3 épocas e meia...

Marco Morais disse...

Quando disse que, de todos os Portos (realmente) vencedores, o de AVB era o que menos me impressionava colectivamente, andava longe de achar que não me iria identificar nada com o(s) modelos de jogo do André.

Também não sou apologista, como já rezam por aí, que VP lhe fazia a papa toda (deve ter sido uma excelente ajuda, no entanto) mas se o defendo na etapa Chelsea (na qual outros foram vítimas da má gestão de Abramovich ou dos seus egos) o mesmo já não posso fazer em relação ao Tottenham e ao Zenit.

AVB faz também lembrar os Coldplay - podia ter seguido para o lado dos Radiohead (Guardiola) e seguiu para o lado dos U2 (Mourinho). Está lá o duplo-pivot (ainda estou para ver Witsel explodir no bloco adversário, ou, se for pedir muito, no meio-campo adversário), está lá a queda para fechar e soltar (como ontem se viu) e estão lá agora, as horrendas marcações ao homem nas bolas paradas.

Ainda no porto recordo uma pré-época jogada toda com Rúben Micael, um pouco à frente de Fernando, e Moutinho como organizador (?). Antes da Supertaça, o madeirense lesiona-se e aparece o melhor Porto (com Bellushi). Versão que manteve até final - com Guarín a substituir o argentino, quando este se lesionou ou baixou de forma. Ainda hoje ligo essa lesão a um Porto que acabou por ganhar tudo.

Em suma, se pudesse escolher, pediria o regresso de VP primeiro do que o regresso de AVB - que ainda admiro imenso no campo da comunicação.

Luís, penso que o Porto só jogou tão baixo como o Zenit nos últimos 20 minutos.

Pedro disse...

AVB pode ter seguido para o lado dos U2 mas enganou-se no caminho e foi parar ali para os lados da Rosinha...
:)

Marco Morais disse...

Ainda assim faz-te mandar boquitas :P

Pedro disse...

Obviamente. Se fosse mesmo bom não mandava bocas. :)

Marco Morais disse...

Há melhor, sem dúvida. Mas treinando em Portugal, neste momento, seria o melhor. Também não é o farrapo que (alguns) querem fazer dele.

Pedro disse...

As más linguas dizem que a base do seu sucesso sempre foi Vítor Pereira. Tendo em conta o resto das respectivas carreiras tendo a concordar. Não é nenhum farrapo mas está longe, muito longe, de merecer os clubes (e dinheiro) que tem tido.