domingo, fevereiro 14

San Iker: o novo padroeiro dos contorcionistas

É sempre uma chatice quando um gajo tem de escrever para agradar a alguém. Alguns fazem-no há tantos anos que já nem pensam que o fazem, arranjando soluções para manter a linha de pensamento. Desta vez Iker mereceu as primeiras páginas da 'Central da Alface' porque, uns furos abaixo da realidade, há 'factos' que agradariam mais a quem perdeu - ou a quem olha para as capas sem comprar o jornal. San Iker está de regresso e Santo António que se cuide. Já Júlio César, Rui Patrício e as barras, conseguiram escapar de boa nos últimos clássicos que o Dragão viu perder. Aí as oportunidades de pouco valeram a dragões amarrados nas excelentes teias tácticas de Jesus e Silva, que subiram aos escaparates com a ajuda do cinzentismo de Lopetegui. 

Jogar para o lado e para trás deu jeito... a Sporting e Benfica. O Lopi-Team capitalizava a grande parte do jogo mas não o fazia com responsabilidade. Gastava o tempo, somente. Nada de reviravoltas pois nele, nesse tegui-taka, se percebia a real diferença entre jogar pelos três corredores, ou somente em dois. Ainda por cima, o 'terceiro' é aquele onde dói mais ao adversário. Mas o FC Porto mastigava, mastigava. Curiosamente, no meio (ou nos lados, melhor dizendo) de tanto tempo perdido, os azuis e brancos arranjavam sempre um ou outro escape. Oportunidades que, ao fim, Lopetegui multiplicava por três, fazendo aquilo que Rui Vitória repete sempre que perde a meta numa 'contagem de montanha'. Dava jeito que o FC Porto continuasse então a preencher meios-campos e a jogar com os laterais na mesma linha-de-passe dos alas e não utilizasse o corredor central para, ao menos, enervar as defesas 'de betão' adversárias.

A diferença é que a maioria dos adeptos não foi na cantiga. Talvez por não ter a Central a ajudar a criar realidades paralelas, cedo o adepto portista se apercebeu que Lopetegui teria de evoluir. A sorte, ou falta dela, não contam nada em futebol - especialmente na Invicta. E mesmo longe de ser um paraíso de coerência, o Porto portista sabia o que faltava para "repetir a história". E por entre escolher o café que desse mais sorte, ou ver em casa, por entre deixar a perna direita - como que a simbolizar o visitante - por cima da perna esquerda, e apoiar a cara na mão destra, a Invicta azul e branca rejubilou quando Peseiro escolheu Chidozie para alinhar de início. Era um sinal claro que no meio da SADica turbulência, ainda se soube escolher alguém que, mesmo sendo benfiquista ou sportinguista desde pequenino, sabe o que é o FC Porto.

José Peseiro queria mais do que Fonseca e Lopetegui 'quiseram' e mediu-se por Villas-Boas e Vítor Pereira. Quis fazê-lo desde início mas os fogachos iniciais do Benfica - sempre perigosíssimo nas entradas, quer controle o jogo, quer não - meteram o dragão em sentido. O bicampeão tinha força para, logo na 1.ª bola, se impor a um FC Porto em falência mental e daí lançar correrias que deixavam o visitante à procura de si próprio, da sua melhor versão - uma que nem sabia que existia. Transições e mais transições, cruzamentos e mais cruzamentos, todos a uma velocidade impressionante que torna as coisas muito difíceis para quem defende... e também para quem ataca. Com o jogo partido, o Benfica superiorizava-se materializando isso mesmo no marcador quando encontrou, pela primeira vez, o corredor central. Sanches, um menino que sozinho teve de tomar conta de um 'miolo' gigante, divide o golo com um Mitroglou fisicamente impressionante como tecnicamente interessante.

Tudo o que o FC Porto mais temia se materializou ainda antes dos 20 minutos. Mas se, 50 minutos depois, haveria portistas a pedir que o jogo "só tivesse 70", esqueceu-se a Luz e o seu habitante que o Benfica passa enorme parte dos jogos arredado do seu controle. Tudo muito bem desde que ninguém encontre nesgas por onde rematar. Tudo muito bem desde que os ataques se resumam à velha escola portuguesa de 'bola na ala e cá vai disto para a área' mesmo que nela não esteja ninguém. Daí que o golo de Herrera possa ter caído do céu e não a premiar a estratégia que Peseiro disse ter. Sim, este Porto faz pouca posse, mas a que faz é dentro do meio-campo adversário, onde é mais difícil fazê-la (sendo por isso o seu número bem mais reduzido do que com o anterior técnico) mas onde é bem mais perigosa. Olhando para esses indicadores (bem renhidos ao intervalo) restava olhar também para o tempo que o Porto passava no meio-campo rival, contrastando com as jogadas de cinco segundos do bicampeão - que mais tarde perderiam gás.

Daí que a segunda metade, para além de apelar ao 'tudo ou nada' para os visitantes, trouxesse aquele Benfica que quer nos Cónegos, quer na Amoreira, quer no Restelo, passa longe do jogo. Pode arranjar, brilhantemente, situações para marcar em cada pedra na qual dá um pontapé, mas há mais que tempo, há mais que espaço, para os adversários emergirem. É assim há 6 anos. A diferença é que a excelência defensiva não se consegue reproduzir com o Benfica LAB a avisar que Samaris tem de juntar mais aos centrais e que a equipa tem de fechar melhor o meio. Não se sabe se no meio da crença que os vídeos de motivação tentaram fazer emergir, ou na certeza de quem em três, quatro jogadas, duas bolas, pelo menos, entrariam, o Benfica desenhou movimentos defensivos que tentam ser/foram/são uma fotocópia mas que perderam a tinta original pois Rui Vitória não foi o seu criador. Vitória não é mais que um aproveitador de chances de golo. Não admira que se tenha queixado de Casillas e que não olhe para a enormidade de tempo e espaço que deu ao FC Porto no seu meio-campo. E só assim poderia um Porto zombie, agradecer a Herrera (foste mesmo tu que marcaste aquele golo, Hector?) e encontrar o killer-instinct (cof!) de Aboubakar para de pé-para-pé (foi assim com Peseiro na banheira de Roterdão e foi assim, pese embora o empate, com Peseiro em... Old Trafford) sair da Luz com os três pontos. Não sem antes, e por 24 minutos, relembrar a velha máxima do Zé de Coruche: "criam-nos situações em transição mas em organização raramente temos problemas". Sim, o jogo foi de Iker, foi de Herrera e foi do tal "treinador do FC Porto" a quem ficam a faltar os Aroucas desta vida. Não foi do Benfica, pela mesma razão que faz com que os encarnados não encontrem Jonas neste tipo de jogos - que é como dizer que não encontram o claro domínio dos mesmos. Claro que a culpa é do Indiana, como as manchetes são de Iker. Mas o Benfica LAB já deve estar em cima do assunto. 

2 comentários:

luis disse...

Continua a achar que o basco foi mais vítima do que culpado. Vítima porque apanhou o Benfica de Jesus com 4 anos de embalagem, um plantel sem identidade, uma estrutura menos protectora e claro, porque às vezes bastava ter tido um bocadinho de sorte.

Continuo a olhar para o FCP como um clube estranho, cheio de jogadores que nem sequer conheço, mesmo que haja ali um Neves e um André. Também há um Helton mas sem o peso de antigamente.

Quanto ao resto, acho que exageras um bocado em relação a RV. Não será assim tão mau. É o seu primeiro ano e teve e tem contratempos que podem ter afectado o seu trabalho.

Além disso, é muito complicado substituir alguém que esteve ali 6 anos e que deixou uma marca tão profunda (foi com JJ que se começou a falar de futebol em Portugal).

Este ano é de graça. Mas se continuarmos a ter na dirigentes que boicotam o treinador (como fizeram com JJ, também) será sempre mais difícil.

Marco Morais disse...

Sobre Lopetegui não acho. Não acho mesmo. Talvez só concordasse na parte em que quem o contratou já deveria saber o estilo que ia trazer: já era visível o 'lado a lado' nos Sub 21 espanhóis.

Depois, como disse, restou a esperança que ele evoluísse. Não se tratava de perceber melhor a Liga mas sim o futebol como todo. Como li por aí, e retive até hoje, "há muito que ele deveria estar a rodar a bola para um lado e para o outro num Getafe qualquer".

Rui Vitória não é mau. É péssimo. Para além de ter o mesmo vício hipócrita da escola de misters portuguesa, não foi mais que um fotocopiador com um atributo importante: coragem na hora de meter a jogar quem acha que deve jogar. Curiosamente aplicou a mesma lógica para o Salvio do que aplicou para Sanches. Correu bem uma vez, correu mal da outra. De resto é tacticamente antiquado.

Talvez te pareça exagerado porque ele parece, na realidade, muito boa pessoa, com uma personalidade íntegra. Mas anda longe da realidade. Aqui classifico o Vitória treinador, a léguas da realidade do Benfica, e não o homem a quem tenho respeito pela coragem.

O dia que o futebol evoluir, Vitórias e Lopeteguis estão tramados, porque defendem o indefensável com clichés e histórias da carochinha. E tanto um como o outro vão a continuar a poder "ter ganho" os seus jogos.

Vão conseguindo coisas importantes aqui e ali, mas que não chegam, Luís. Outros, bem mais evoluídos, são criticados pelas fases-de-grupos da Champions quando a enxurrada de argumentos já classificou uns grupos de fortes, outros de fracos, já lembrou pontuações com 10 pontos. O futebol não é matemática e RV e Lopetegui, quando apanharam equipas evoluídas, deixaram sempre a desejar.

E, digo-te, Peseiro ainda vai ter muito que amargar. Uma andorinha não faz a primavera. Percebeu um contexto. Tem de perceber outros. Já agora o Porto dele é o dos primeiros 20 minutos da 2.ª parte ou é o 'estende passadeiras' da primeira? Ganhou bem e acredito que, depois de ler tudo o que li vindo da Luz, que hoje, se jogassem de novo, ganharia com muita tranquilidade. Mas a maneira como a atacar se expõe a transições não é admissível. Dá para marcar e controlar sem se expôr tanto.

Abraço.